Domingo, 28 de Junho de 2009

Discografia Obrigatória

Sugestões Metaleiras de muitos estilos diferentes!

Dos anos 80 a 2009!

At the Heart of Winter

In the Nightside Eclipse

Passage

Haunted

Enthrone Darkness Triumphant

Velvet Darkness They Fear

Discouraged Ones

The Principle of Evil Made Flesh

Abducted

A Journey´s End

Vovin

Alternative 4

Sábado, 27 de Junho de 2009

Draconian Times

Visions

Turn Loose the Swans

Chaos A.D.

Master of Puppets

Tales from the thousand lakes

Wolfheart

Wildhoney

Duas Pérolas





Poucas são as bandas que mal ouvimos uma faixa, damos logo conta da sua qualidade como um todo. Pois bem, sabemos todos nós que o movimento musical em Portugal, que não seja mainstream, dificilmente vem à tona. Há 15 anos atrás quando comecei a ouvir rock e metal, partilhávamos cassetes uns com os outros, gravávamos e escrevíamos no papel de cartão da K7 os nomes das malhas. Agora a internet de facto pode ter um efeito multiplicador na divulgação das bandas, que antes só as fanzines é que o faziam, numa escala extraordinariamente menor. Ao navegarmos encontramos agradáveis surpresas. Conheci recentemente uma banda portuguesa, na área do Doom/Death muito interessante. A banda chama-se PROCESS OF GUILT e os seus elementos são do Alentejo, de Évora. Partilharam o palco esta semana com outra boa banda nacional, os THE FIRSTBORN. Trata-se de duas bandas que praticam uma sonoridade muito interessante, cada uma bem diferente da outra, mas ambas de uma qualidade superior. Os THE FIRSTBORN já os conhecia há uma porrada de anos, ainda eles tinham EVIL no nome. Ouvi a demo deles na década passada, e comprei o "Rebirth of Evil". Ouvi agora o novo álbum e é de facto majestoso. Mas voltando aos PROCESS OF GUILT, bastou ouvir a primeira faixa do Myspace da banda, para perceber que estava perante uma excelente sonoridade. O movimento underground nacional está de facto de parabéns pela simples existência destas duas pérolas nacionais. Que ambas as bandas tenham as condições necessárias (merecidas) para vencer e chegar com ainda mais força ao mercado internacional.

Os meus parabéns e um abraço!

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Novos Ventos e Marés

O PSD ganhou as eleições europeias. Em Democracia vence quem tem mais votos. Paulo Rangel teve o mérito de adoptar discursos sérios. Parece-me que de facto o homem não está ali apenas pelo protagonismo fácil. Parece-me um homem de carácter. O PS sofreu uma estrondosa e merecida derrota. Sócrates a partir de agora é cada vez mais um homem só. O CDS teve uma boa votação, também merecida, sobretudo pelo trabalho positivo no parlamento. Paulo Portas e Nuno Melo têm feito um bom trabalho na Assembleia da República, verdade seja dita. O PCP teve também um bom resultado. O Bloco de Esquerda foi a surpresa da noite. Ganhando o terceiro lugar do pódio, a terceira força política, o Bloco tem agora, a partir deste momento, uma oportunidade de ouro, para se tornar num partido, num movimento social e político, mais coerente, mais adulto, com mais substância.

Estamos numa época de transição. Os partidos que governam a Europa, o chamado "centrão" vai começar a perder votos. As pessoas vão começar a votar mais no CDS e no Bloco. Os dois partidos do poder estão cada vez mais ocos, esvaziados de ideologia e princípios, e as pessoas, mal ou bem, querem, anseiam por ideias, princípios e valores. PS e PSD têm com esta votação, em conjunto cerca de 60% dos votos. PCP e Bloco, juntos rendem mais de 20%. Como é que é possível haver mais de 20% de votos à esquerda do PS?

Por incompetência, inabilidade, inépcia, comodismo. São os interesses do Bloco Central. As grandes empresas, alguns bancos, as instituições estão minadas por elementos dos dois maiores partidos.

O partido de Gordon Brown foi o terceiro mais votado em Inglaterra. A extrema-direita avança na Europa. Berlusconi ganhou mais uma vez na Itália. Apesar dos paradoxos, bem visíveis, paulatinamente desperta-se uma nova consciência. O voto em branco duplicou. O voto nulo aumentou significativamente. A abstenção, consciente, aumenta também.

A Democracia, tal e qual como a conhecemos, vai perdendo chama e vigor.

Novos ventos e marés...

Domingo, 31 de Maio de 2009

Campanhas e afins

Não há paciência para aturar nem sequer 5 minutos de uma campanha eleitoral. São os cartazes com o quais nos deparamos depois da curva, é o noticiário da manhã a abrir com as últimas declarações deste e daquele, e as reacções e os comentários. Frases estúpidas nos cartazes, caras novas, caras velhas, ataques políticos, nós não somos assim, somos diferentes... Enfim, não há paciência. No próximo domingo lá vamos nós, os bobos da côrte, os que pagamos impostos, votar. A abstenção será brutal. Chegará aos 70%? Estaremos tentados no voto em branco? Esta é apenas mais uma Democraciazinha dependente do Banco Central Europeu, incapaz de solucionar seja o que for. E nós os bobos da côrte financiamos as campanhas eleitorais, os desastres do BPN e afins. E no dia 30 de cada mês lá encontramos no nosso recibo de ordenado os débitos do IRS e da Segurança Social, que é o que sustenta o disfarce gigantesco mas discreto desta Democraciazinha coitadinha.

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Anathema, 5 de Maio de 2009, Almada.

A primeira vez que vi os Anathema ao vivo. Não há palavras para descrever a grandiosidade e a magnificência da performance da banda. Criadores do estilo Doom/Death em conjunto com os Paradise Lost,e os My Dying Bride, os Anathema efectuaram um trajecto musical muitíssimo interessante, absorvendo hoje influências de diversos estilos fora do metal, mas mantêm a essência, o que é difícil nos dias que correm.
Uma excelente banda. Um magnífico concerto. Uma atitude fantástica. Para a história ficam os momentos de delírio de um público ao rubro, um bilhete autografado pelo Vincent, e umas horas que são sem dúvida parte integrante dos melhores momentos da minha vida.

A simple mistake

Think for yourself you know what you need in this life
See for yourself and feel your soul come alive tonight
Here in the moment we share, trembling between the worlds we stare
Out at starlight enshrined, veiled like diamonds in..

...time can be the answer, take a chance, lose it all
It's a simple mistake to make to create love and to fall
So rise and be your master you don't need to be a slave
Of memory ensnared in a web, in a cage

I have found my way to fly free from the constraints of time
I have soared through the sky seen life far below in mind
Breathed in truth, love, serene, sailed on OCEANS OF BELIEF
Searched and found life inside, we're not just a moment in time...

....can be the answer, take a chance lose it all
It's a simple mistake to make to create love and to fall
So rise and be your master you don't need to be a slave
Of memory ensnared in a web, in a cage

[spoken words from "Defending Middle-Earth Tolkien: Myth and Modernity" by Patrick Curry:]
Despair is for people who know, beyond any doubt, what the future is going to bring.
Nobody is in that position.
So despair is not only a kind of sin, theologically, but also a simple mistake, because nobody actually knows.
In that sense there always is hope.


Anathema

"A Simple Mistake"

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Ramp

Sexta-feira, 24 de Abril. Benavente.


Chegámos ao local do concerto um bocado atrasados. Os Ramp já estariam a tocar? Saio do carro, abro a bagageira e substituo o fato pela t-shirt do Intersection e uns ténis. Afinal o som das guitarras e da bateria era de uma banda também portuguesa que estava a abrir para os gigantes da cena nacional.

Os Ramp, para mim, são uma grande banda. Fizeram este ano 20 anos de carreira. Têm álbuns, desde o início, muito interessantes, consistentes, coerentes, e a sua evolução foi significativa. Se a banda tivesse feito o seu percurso na Alemanha por exemplo, teriam uma outra dimensão, porventura semelhante aos Moonspell. A comparação surge inevitavelmente, porque são duas bandas da mesma geração, e com destinos muito diferentes.

Os Ramp têm uma enorme qualidade e um potencial que não foi suficientemente aproveitado pelas editoras e pelas promotoras. Do meu ponto de vista, os Ramp estão no mesmo patamar de Machine Head e Fear Factory, e não são em nada inferiores. São músicos excelentes, com uma boa capacidade de "aguentar o barco" e de se reinventarem a cada momento. Deixo as apreciações técnicas musicais a quem de direito pois não sou nenhum comentador de música em si, apenas aprecio como um leigo do meio.

Enquanto português sinto-me orgulhoso dos nosso Ramp.

Grande exemplo de humildade, força, vitalidade e querer!

Depois do concerto lá estivémos nós à espera dos autógrafos, mas da conversa amiga também. Enquanto que outros encaram os fãs como mero apêndices da banda, os Ramp estão lá connosco, cumprimentam-nos com um abraço amigo, agradecem-nos o apoio e dizem-nos que sem nós, os Ramp não seriam os Ramp!


Um grande abraço aos RAMP!

ps: Gostei muito deste álbum, intitulado de Visions!

E depois do 25 de Abril

O 25 de Abril foi absolutamente um marco importante na história da vida de Portugal. Depois de 48 anos de uma ditadura o país apresentava sinais de subdesenvolvimento gritantes, do ponto de vista económico, social e cultural. Deveria ser portanto um acontecimento comemorado por toda a sociedade portuguesa com algo único e irrepetível no tempo e no espaço. A esquerda tem a mania de se vangloriar e de chamar a si a responsabilidade do evento. A direita insiste num certo saudosismo do período anterior à revolução. Este é apenas um aspecto de falta de maturidade política do nosso país.

Alguns, reclamam a ausência de importância do 25 de Abril, e se pudessem aboliam o feriado. Outros desfilam todos os anos na Avenida da Liberdade, saudosos do PREC.

É problema, o cerne da questão, da divergência, está no que se passou no período pós-25 de Abril. Os oportunistas chegaram junto do poder e puxaram para si as responsabilidades da condução do navio. Mas quem fez o 25 de Abril foram os militares, não foram os militantes do Partido Comunista e afins. Salgueiro Maia, esse grande homem, de grande carácter, foi quem enfrentou olhos nos olhos o inimigo. E esse não quis nenhum poleiro. Não obstante, fica na história como um homem no seu lugar. Todos os excessos, oportunismos, e afins, ficam manchados na nossa história e ligados a uma certa esquerda.

A direita reaccionária fez o seu papel, obviamente. Perante as ofensivas marxistas-leninistas do que é que se estava à espera?

Por isso é que o 25 de Novembro foi a segunda parte do 25 de Abril, e são dois acontecimentos igualmente importantes, porque o último pôs no seu lugar todos os oportunistas de Abril.

Dito isto, quando se fala no 25 de Abril, encara-se muitas vezes o seu lado mais vermelho, quando na verdade o 25 de Abril foi apenas um dia em que um povo foi liberto de uma ditadura, ponto final.

Viva o 25 de Abril e o 25 de Novembro!

Domingo, 19 de Abril de 2009

Zeitgeist



Zeitgeist é um termo alemão cuja tradução significa espírito de época ou espírito do tempo. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo (definição em Wikipedia).

Zeitgeist é um movimento americano, que produziu dois documentários sobre o estado do mundo e sobre a humanidade contemporânea. Os documentários analisam temáticas muito diferentes, mas que estão interligadas pelo sistema. O sistema monetário, a religião, a guerra, e a futura implantação de chips no corpo humano. Há aspectos documentados como a criação da Reserva Federal Americana no início do século XX, que são absolutamente impressionantes.

Há outro aspecto interessantíssimo no Zeitgeist: foi realizado e produzido por americanos.


www.zeitgeistmovie.com

Domingo, 12 de Abril de 2009

A PEQUENA ALMA E O SOL

A PEQUENA ALMA E O SOL


- NEALE DONALD WALSH-



- Eu sei quem sou!
E Deus disse:
- Que bom! Quem és tu?
E a Pequena Alma gritou:
- Eu sou Luz
E Deus sorriu.
- É isso mesmo! - Exclamou Deus. - Tu és Luz!

A Pequena Alma ficou muito contente, porque tinha descoberto aquilo que todas as almas do Reino deveriam descobrir.

- Uauu, isto é mesmo bom! - Disse a Pequena Alma.

Mas, passado pouco tempo, saber quem era já não lhe chegava. A pequena Alma sentia-se agitada por dentro, e agora queria ser quem era. Então foi ter com Deus (o que não é má ideia para qualquer alma que queira ser Quem Realmente É) e disse:

- Olá Deus! Agora que sei Quem Sou, posso sê-lo?

E Deus disse:
- Quer dizer que queres ser Quem já És?

- Bem, uma coisa é saber Quem Sou, e outra coisa é sê-lo mesmo. Quero sentir como é ser a Luz! - Respondeu a pequena Alma.

- Mas tu já és Luz - repetiu Deus, sorrindo outra vez.
- Sim, mas quero senti-lo! - Gritou a Pequena Alma.

- Bem, acho que já era de esperar. Tu sempre foste aventureira - disse Deus com uma risada. Depois a sua expressão mudou.

- Há só uma coisa...
O quê? - Perguntou a Pequena Alma.

- Bem, não há nada para além da Luz. Porque eu não criei nada para além daquilo que tu és; por isso, não vai ser fácil experimentares-te como Quem És, porque não há nada que tu não sejas.

- Hã? - disse a Pequena Alma, que já estava um pouco confusa.

- Pensa assim: tu és como uma vela ao Sol. Estás lá sem dúvida. Tu e mais milhões, ziliões de outras velas que constituem o Sol. E o Sol não seria não seria o Sol sem vocês. "Não seria um sol sem uma das suas velas... e isso não seria de todo o Sol, pois não brilharia tanto. E no entanto, como podes conhecer-te como a Luz quando estás no meio da Luz - eis a questão".

- Bem, tu és Deus. Pensa em alguma coisa! - Disse a Pequena Alma mais animada.

Deus sorriu novamente.
- Já pensei. Já que não podes ver-te como a Luz quando estás na Luz, vamos rodear-te de escuridão - disse Deus.

- O que é a escuridão? Perguntou a Pequena Alma.
- É aquilo que tu não és - replicou Deus.

- Eu vou ter medo do escuro? - Choramingou a Pequena Alma.

- Só se o escolheres. Na verdade não há nada de que devas ter medo, a não ser que assim o decidas. Porque estamos a inventar tudo. Estamos a fingir.

- Ah! - disse a Pequena Alma, sentindo-se logo melhor.

Depois Deus explicou que, para se experimentar o que quer que seja, tem de aparecer exactamente o oposto.

- É uma grande dádiva, porque sem ela não poderíamos saber como nada é - disse Deus - Não poderíamos conhecer o Quente sem o Frio, o Alto sem o Baixo, o Rápido sem o Lento. Não poderíamos conhecer a Esquerda sem a Direita, o Aqui sem o Ali, o Agora sem o Depois. E por isso, - continuou Deus -quando estiveres rodeada de escuridão, não levantes o punho nem a voz para amaldiçoar a escuridão.

"Sê antes uma Luz na escuridão, e não fiques furiosa com ela. Então saberás Quem Realmente És, e os outros também o saberão. Deixa que a tua Luz brilhe tanto que todos saibam como és especial!"

- Então posso deixar que os outros vejam que sou especial? - perguntou a Pequena Alma.

- Claro! - Deus riu-se. - Claro que podes! Mas lembra-te de que "especial" não quer dizer "melhor"! Todos são especiais, cada qual à sua maneira! Só que muitos esqueceram-se disso. Esses apenas vão ver que podem ser especiais quando tu vires que podes ser especial!

- Uau - disse a Pequena Alma, dançando e saltando e rindo e pulando. - Posso ser tão especial quanto quiser!

- Sim, e podes começar agora mesmo - disse Deus, também dançando e saltando e rindo e pulando juntamente com a Pequena Alma - Que parte de especial é que queres ser?

- Que parte de especial? - repetiu a Pequena Alma. - Não estou a perceber.

- Bem, - explicou Deus - ser a Luz é ser especial, e ser especial tem muitas partes. É especial ser bondoso. É especial ser delicado. É especial ser criativo. É especial ser paciente. Conheces alguma outra maneira de ser especial?

A Pequena Alma ficou em silêncio por um momento.

- Conheço imensas maneiras de ser especial! - Exclamou a Pequena Alma - É especial ser prestável. É especial ser generoso. É especial ser simpático. É especial ser atencioso com os outros.

- Sim! - Concordou Deus - E tu podes ser todas essas coisas, ou qualquer parte de especial que queiras ser, em qualquer momento. É isso que significa ser a Luz.

- Eu sei o que quero ser, eu sei o que quero ser! - Proclamou a Pequena Alma com grande entusiasmo. - Quero ser a parte de especial chamada "perdão". Não é ser especial alguém que perdoa?

- Ah, sim, isso é muito especial, assegurou Deus à Pequena Alma.

- Está bem. É isso que eu quero ser. Quero ser alguém que perdoa. Quero experimentar-me assim - disse a Pequena Alma.

- Bom, mas há uma coisa que devias saber - disse Deus.

A Pequena Alma já começava a ficar um bocadinho impaciente. Parecia haver sempre alguma complicação.

- O que é? - Suspirou a Pequena Alma.
- Não há ninguém a quem perdoar.

- Ninguém? A Pequena Alma nem queria acreditar no que tinha ouvido.

- Ninguém! - repetiu Deus. Tudo o que Eu fiz é perfeito. Não há uma única alma em toda a Criação menos perfeita do que tu. Olha à tua volta.

Foi então que a Pequena Alma reparou na multidão que se tinha aproximado. Outras almas tinham vindo de todos os lados - de todo o Reino - porque tinham ouvido dizer que a Pequena Alma estava a ter uma conversa extraordinária com Deus, e todas queriam ouvir o que eles estavam a dizer.

Olhando para todas as outras almas ali reunidas, a Pequena Alma teve de concordar. Nenhuma parecia menos maravilhosa, ou menos perfeita do que ela. Eram de tal forma maravilhosas, e a sua Luz brilhava tanto, que a Pequena Alma mal podia olhar para elas.

- Então, perdoar quem? - Perguntou Deus.

- Bem, isto não vai ter piada nenhuma! - Resmungou a Pequena Alma - Eu queria experimentar-me como Aquela que Perdoa. Queria saber como é ser essa parte de especial.

E a Pequena Alma aprendeu o que é sentir-se triste.

Mas, nesse instante, uma Alma Amiga destacou-se da multidão e disse:
- Não te preocupes, Pequena Alma, eu vou ajudar-te - disse a Alma Amiga.

- Vais? - a Pequena Alma animou-se. - Mas o que é que tu podes fazer?
- Ora, posso dar-te alguém a quem perdoares!

- Podes?
- Claro! - Disse a Alma Amiga alegremente. - Posso entrar na tua próxima vida física e fazer qualquer coisa para tu perdoares.

- Mas porquê? Porque é que farias isso? - Perguntou a Pequena Alma. - Tu, que és um ser tão absolutamente perfeito! Tu, que vibras a uma velocidade tão rápida a ponto de criar uma Luz de tal forma brilhante que mal posso olhar para ti! O que é que te levaria a abrandar a tua vibração para uma velocidade tal que tornasse a tua Luz brilhante numa luz escura e baça? O que é que te levaria a ti, que danças sobre as estrelas e te moves pelo Reino à velocidade do pensamento, a entrar na minha vida e a tornares-te tão pesada a ponto de fazeres algo de mal?

- É simples - disse a Alma Amiga. - Faço-o porque te amo.

A Pequena Alma pareceu surpreendida com a resposta.

- Não fiques tão espantada - disse a Alma Amiga - tu fizeste o mesmo por mim. Não te lembras? Ah, nós já dançámos juntas, tu e eu, muitas vezes. Dançámos ao longo das eternidades e através de todas as épocas. Brincámos juntas através de todo o tempo e em muitos sítios. Só que tu não te lembras. Já fomos ambas o Todo. Fomos o Alto e o Baixo, a Esquerda e a Direita. Fomos o Aqui e o Ali, o Agora e o Depois. Fomos o Masculino e o Feminino, o Bom e o Mau - fomos ambas a vítima e o vilão. Encontrámo-nos muitas vezes, tu e eu; cada uma trazendo à outra a oportunidade exacta e perfeita para Expressar e Experimentar Quem Realmente Somos.

- E assim, - a Alma Amiga explicou mais um bocadinho - eu vou entrar na tua próxima vida física e ser a "má" desta vez. Vou fazer alguma coisa terrível, e então tu podes experimentar-te como Aquela Que Perdoa.

- Mas o que é que vais fazer que seja assim tão terrível? - perguntou a Pequena Alma, um pouco nervosa.

- Oh, havemos de pensar nalguma coisa - respondeu a Alma Amiga, pisacndo o olho.

Então a Alma Amiga pareceu ficar séria, disse numa voz mais calma:

- Mas tens razão acerca de uma coisa, sabes?
- Sobre o quê? - Perguntou a Pequena Alma.

- Eu vou ter de abrandar a minha vibração e tornar-me muito pesada para fazer esta coisa não-muito-boa. Vou ter de fingir ser uma coisa muito diferente de mim. E por isso, só te peço um favor em troca.

- Oh, qualquer coisa, o que tu quiseres! - Exclamou a Pequena Alma, e começou a dançar e a cantar: - Eu vou poder perdoar, eu vou poder perdoar!

Então a Pequena Alma viu que a Alma Amiga estava muito quieta.
- O que é? - Perguntou a Pequena Alma. - O que é que eu posso fazer por ti? És um anjo por estares disposta a fazer isto por mim!

- Claro que esta Alma Amiga é um anjo! - Interrompeu Deus, - são todas! Lembra-te sempre: Não te enviei senão anjos.

E então a Pequena Alma quis mais do que nunca satisfazer o pedido da Alma Amiga.

- O que é que posso fazer por ti? - Perguntou novamente a Pequena Alma.

- No momento em que eu te atacar e atingir, - respondeu a Alma Amiga - no momento em que eu te fizer a pior coisa que possas imaginar, nesse preciso momento...

- Sim? - Interrompeu a Pequena Alma - Sim?
A Alma Amiga ficou ainda mais quieta.

- Lembra-te de Quem Realmente Sou.
- Oh, não me hei-de esquecer! - Gritou a Pequena Alma - Prometo! Lembrar-me-ei sempre de ti tal como te vejo aqui e agora.

- Que bom, - disse a Alma Amiga - porque, sabes, eu vou estar a fingir tanto, que eu própria me vou esquecer. E se tu não te lembrares de mim tal como eu sou realmente, eu posso também não me lembrar durante muito tempo. E se eu me esquecer de Quem Sou, tu podes esquecer-te de Quem És, e ficaremos as duas perdidas. Então, vamos precisar que venha outra alma para nos lembrar às duas Quem Somos.

- Não vamos, não! - Prometeu outra vez a Pequena Alma. - Eu vou lembrar-me de ti! E vou agradecer-te por esta dádiva - a oportunidade que me dás de me experimentar como Quem Eu Sou.


E assim o acordo foi feito. E a Pequena Alma avançou para uma nova vida, entusiasmada por ser a Luz, que era muito especial, e entusiasmada por ser aquela parte especial a que se chama Perdão.

E a Pequena Alma esperou ansiosamente pela oportunidade de se experimentar como Perdão, e por agradecer a qualquer outra alma que o tornasse possível.

E, em todos os momentos dessa nova vida, sempre que uma nova alma aparecia em cena, quer essa nova alma trouxesse alegria ou tristeza - principalmente se trouxesse tristeza - a Pequena Alma pensava no que deus lhe tinha dito.

Lembra-te sempre, - Deus aqui tinha sorrido - não te enviei senão anjos!

Domingo, 5 de Abril de 2009

Sugestão de Leitura




Um Guia para a Transformação pessoal. Não se trata de mais um livro banal de auto-ajuda, mas sim um conjunto de ensinamentos sobre princípios aos quais tendencialmente somos cegos e surdos,conducentes a um aumento do bem-estar pessoal e profissional. Ao lermos cada frase, cada página, deixamo-nos atraír por uma linguagem simples e cativante, que nos ensina a olhar, ver e reparar. Tantas vezes nas nossas vidas apenas olhamos, às vezes acabamos por ver mas raramente reparamos. Este tipo de ensinamentos infelizmente não nos são dados nas universidades. Mas quando individualmente descobrimos estas ferramentas notamos que estas armas interiores valem mais do que qualquer análise econométrica ou macroeconómica. A beleza dos textos comparam-se ao solo de "Comfortably Numb" ou à magnificência de "Shine on you crazy diamond".

Subjectividade Objectiva

Depois de amanhã
sim só depois de amanhã
levarei amanhã a pensar...
em depois de amanhã
e assim será possível,
mas hoje não hoje nada hoje não posso...
a persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
sono da minha vida real,
intercalado o cansaço antecipado e infinito...
tenho já o plano traçado
mas não, hoje não traço planos,
amanhã é o dia dos planos,
amanhã sentar-me-ei p'ra conquistar o mundo,
depois de amanhã...
amanhã te direi as palavras,
ou depois de amanhã,
sim depois de amanhã.



Excerto de "Adiamento" de Fernando Pessoa - Álvaro de Campos

in Para um Poema, Coldfinger.

Sábado, 28 de Março de 2009

Tempo Certo

De uma coisa podemos ter certeza:
de nada adianta querer apressar as coisas;
tudo vem ao seu tempo, dentro do prazo que lhe foi previsto.

Mas a natureza humana não é muito paciente.

Temos pressa em tudo e aí acontecem
os atropelos do destino, aquela situação que você mesmo provoca, por pura ansiedade
de não aguardar o tempo certo.

Mas alguém poderia dizer: Qual é esse
tempo certo?


Bom, basta observar os sinais.

Quando alguma coisa está para acontecer
ou chegar até sua vida, pequenas manifestações do cotidiano enviarão sinais indicando o caminho certo.

Pode ser a palavra de um amigo,
um texto lido, uma observação qualquer.

Mas, com certeza, o sincronismo se encarregará de colocar você no lugar certo,
na hora certa, no momento certo, diante da situação ou da pessoa certa.

Basta você acreditar que nada acontece por acaso.

Talvez seja por isso que você esteja
agora lendo estas linhas.

Tente observar melhor o que está a sua volta.

Com certeza alguns desses sinais
já estão por perto e você nem os notou ainda.

Lembre-se, que o universo sempre
conspira a seu favor quando você possui um
objetivo claro e uma disponibilidade de crescimento.

Paulo Coelho

Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Notas soltas

"We pray for the end of the season".

É um excerto de uma música dos portugueses Heavenwood. Talvez seja um desejo de muita gente a propósito desta já enfadada crise que ouvimos todos os dias nos meios de comunicação social e obviamente nas pessoas, na rua. O artigo desta semana no jornalista Nicolau Santos no caderno de economia do semanário Expresso sugere a leitura de um livro intitulado de "O lobo de Wallstreet". Foi por causa da ganância, do fundamentalismo do mercado ultra-liberal, que o mundo está como está. A Itália está sob muitos pontos de vista ingovernável, muito paracida com o caso português, talvez um pouco pior em função de problemas muito complexos que nós felizmente não temos. Enfim, lá continuamos nós, a tentar fazer tudo por tudo para contornar as dificuldades. Assim tem de ser. Temos de ser eficazes na busca de soluções, todos os dias, todas as horas. É difícil. Mas é um desafio enorme em simultâneo. Hoje é dia 31 de Janeiro. Um mês se passou. Nem damos pelo tempo passar. Há já algum tempo que aqui não escrevia. O tempo não deixa. O foco é ganhar e vencer. Todos os dias.
No eixo do mal de ontem à noite, um dos melhores programas da televisão portuguesa, mais uma vez Clara Ferreira Alves, Daniel Oliveira e Luís Pedro Nunes estiveram no seu melhor. O contributo destes senhores é importante para a reflexão política que todos nós devemos fazer.

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Cansaços e farturas.

Este fim-de-semana já se ouviu uns "zunzuns" a propósito das discórdias na frágil plataforma, que se tem desenvolvido nos últimos meses, entre a ala esquerda do PS e o BE. Primeiro os diálogos surgiram. Depois vêm as divergências. Afinal os diálogos servem para quê? Somente ganhar uns votos? Criticam os outros e fazem o mesmo? Há vários anos que tento, de acordo como o que me é possível, fomentar um diálogo à esquerda no sentido da real Social-Democracia. Começo a ficar cansado de todas estas incongruências, desta falta de coragem, e sobretudo dos sectarismos ideológicos. Porra! Cada um tem e terá o que merece. Se querem ficar eternamente a criticar e não a assumir as responsabilidades do poder e se querem ficar agarrados a uma ideologia do contra então depois não venham falar do papão da direita e do neoliberalismo e afins. Isto vale para toda a esquerda, não só para alguns.

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Es muss sein!

Foquemo-nos na essência: Portugal diverge da média europeia há 8 anos consecutivos; grande parte dos portugueses estão descontentes e de certa forma desiludidos com a vida política e económica; o país tem uma dívida enormíssima ao estrangeiro (défice externo); significativa parte dos adultos jovens que se licenciaram estão no desemprego ou auferem um salário na casa dos 500 euros, trabalhando em call-centers e afins; a educação, no geral, oferecida pela escola pública e dada pelas famílias, é má ou muito má; as filas de espera e o tipo de atendimento nos hospitais públicos são deploráveis; as poucas perspectivas existentes estão associadas à eterna possibilidade (saída), que é emigrar.

É certo que o país sobreviveu a diversas crises profundas em contextos muitíssimo adversos. Mas passados 35 anos da Revolução de 74, sente-se em geral, que se perderam anos a fio. Parece que só conseguimos transformar alguma coisa com dinheiros europeus. Dá ideia que só conseguimos mudar alguma coisa porque os outros nos deram a mão. Os últimos anos de grande crescimento económico em Portugal estão associados a um programa de obras públicas na década de 90, associado à Expo 98 e à Ponte Vasco da Gama, e à baixa das taxas de juro, decorrentes das exigências do Tratado de Maaschtricht. Desde então o que é que tivémos? Um Governo que se demitiu. Um Primeiro-Ministro que abandonou o barco quando o mar estava agitado. Outro Governo que caíu. Agora temos um Governo em maioria, que de certa forma veio salvar em termos de estabilidade política a década, mas que só ganhará em princípio as próximas eleições porque não há neste momento alternativas melhores.

É esta mediocridade que vai corroendo lentamente o sistema político. As pessoas foram-se desinteressando progressivamente das eleições porque sabem que no fundo é tudo a mesma coisa. O sistema tal e qual como está montado não é sustentável por muito mais tempo. Tenho receio da taxa de abstenção nas próximas eleições. O que aconteceria se a abstenção fosse de 65% ou 70%? E se os votos em branco aumentassem muito? É provável que em nome da estabilidade do país haja uma coligação PS-PSD depois das próximas eleições. Es muss sein! Es muss sein! As nossas democracias europeias vão ficando cada vez mais fragilizadas com este sistema de falsa rotatividade e partilhas de poder.

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Novo Paradigma

"Temos de procurar um novo paradigma, visto que, manifestamente, o que tínhamos não serve. Trouxe corrupção, numa escala nunca vista, falências, descontentamento, desemprego, desigualdades, mais pobreza, e quem sabe se trará ainda revoltas, fruto do descontentamento..."

Mário Soares in "Diário de Notícias", 6-1-2009

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

O Feitiço da Lua

Recentemente os Moonspell apresentaram na FNAC o lançamento do DVD. Este registo em vídeo terá um alcance de nível mundial, algo que só os Madredeus, a Mariza ou a Amália Rodrigues podem alcançar. O DVD em questão sublinha a história da banda desde o início da década de 90. Como tal o acontecimento teve um carácter singular. Na verdade tratou-se de um acontecimento único a nível mundial. Os actuais membros da banda convidaram os ex-membros para a apresentação do tão aguardado DVD. Eu vi pela primeira vez os Moonspell ao vivo em 1998, no Coliseu, no âmbito da apresentação do álbum Sin. Comecei a ouvir os Moonspell em 1994. Era uma K7 com o EP intitulado de "Under the Moonspell" e com o álbum "Wolfheart", na sua primeira edição (sem a faixa "Ataegina"). Essa K7, só por curiosidade, tinha outras 2 malhas, o "cemetary gates" dos Pantera e o "march to death" do primeiro álbum dos Ramp, intitulado de "Thoughts". Passados estes anos todos continuo a gostar dos Moonspell. Na verdade foi a banda que me levou até aos caminhos do Metal. Lembro-me que quando o Fernando Ribeiro dava uma entrevista a uma rádio, eu sentava-me religiosamente a ouvir o que ele tinha para dizer. Hoje, quando o oiço as malhas da demo tape ou do "Under the Moonspell", ainda sinto uma vibração brutal, que só um amante de metal consegue valorizar e perceber what i mean. Adoro igualmente o Wolfheart e o Irreligious. Houve, é verdade, um período, no qual me afastei da banda, sobretudo no momento do lançamento do álbum "Darkness and Hope". Não gosto tanto do Sin e do Butterfly Effect. Gosto de algumas malhas do Antidote, de resto é o ponto de inflexão da banda, nos trilhos de uma recuperação da sua imagem e qualidade musical, do meu ponto de vista. Gosto de uma ou outra malha do Sin, uma ou outra do Butterfly Effect. Mas enquanto álbum não os sinto da mesma forma que a perfeição do Wolfheart ou do Under the Moonspell ou do Anno Satanae. O Memorial é já um álbum muito melhor que os imediatamente anteriores. O último álbum, Night Eternal, é também agradável. Respeito muito a banda. Apesar dos altos e baixos, para mim os Moonspell estiveram, estão e estarão sempre no meu coração. Quem sente a música, quem ama o metal compreende bem o que se pretende transmitir. Tive a oportunidade única de estar com todos os elementos da banda em simultâneo. Tirei fotografias obviamente com todos eles. Foi-me importante conhecer o Ares, o Mantus,o Tann e o Luis Lamelas. Todos eles foram importantes para o processo de crescimento e amadurecimento da banda. Todos eles contribuíram para o grande sucesso da banda. Todos eles merecem um grande elogio nacional por terem criado uma banda de cariz internacional. Os Moonspell fazem digressões nos EUA, por toda a Europa, na América Latina,etc. Em 1995 iniciaram-se numa editora alemã. Levaram a língua e a cultura portuguesa aos 4 cantos do mundo. Houve quem aprendesse português para ler Fernando Pessoa. Um dos cronistas do Expresso, há bem pouco tempo, escreveu um pequeno artigo sobre os Moonspell. Henrique Raposo, um jovem de grande potencial nas áreas políticas,económicas entre outras, abdicou de um artigo sobre economia internacional por exemplo, para escrever sobre esta grande banda portuguesa. Quantos portugueses a conhecem? Guardarei com muito orgulho e grande alegria o poster da primeira edição do Wolfheart autografado por todos os elementos da banda. Guardarei também com muito orgulho as fotos tiradas com todos os elementos da banda. Desde 1990 até hoje. Um grande abraço aos Moonspell e um grande bem-haja!

Domingo, 4 de Janeiro de 2009

Deambulações. Ensaios?

Início de 2009. Não me lembro de começar um ano novo com tantos cenários catastrofistas, pessimistas e derrotistas. Governo, Oposição e cidadãos em geral. Já se escreveu num jornal de referência que no final de 2009 teremos menos 2 bancos por aí. Já se escreveu também muito em futuras falências, desemprego a aumentar brutalmente, os centros comerciais a terem menos criancinhas a comer fast food com os papás, menos saquinhos com comprinhas, e afins. Se eu pudesse ter escolhido o sítio para nascer, escolheria a Noruega. Talvez na próxima reencarnação possa viver perto de Oslo. Até lá contentar-me-ei com as terras de Eça de Queirós, António Lobo Antunes e José Saramago. Começar o ano a ler Eça de Queirós num contexto tão pessimista é dos melhores exercícios para um português. Em 2009 gostaria muito de ver encerrados os processos de corrupção económica que explodiram em 2008. O Dr. Chico Esperto da Silva, pessoa nobre e sensata, será preso? Ficará em prisão domiciliária ou deslocar-se-á para a prisão VIP? Ou será absolvido? Ou o processo durará mais uns 12 anos? Ou 25 anos? E o Dr. Chico Espertinho da Silva será responsabilizado criminalmente pelos danos causados à sociedade? Os bobos da côrte (leia-se cidadãos da classe média que pagam impostos) que paguem a crise. E que acreditem momentaneamente nas previsões de alguns economistas. Lembram-se das previsões sobre os preços do petróleo? Que antes do fim de 2008 o petróleo estaria na casa dos 200 dólares? Lembram-se do tom que imprimiram à irreversibilidade do processo? Jamais teríamos o barril a 40 dólares. Pois claro. Porreiro pá! O conflito israelo-árabe dispara mais uma vez e a Europa a falar a 5 vozes, qual esquizofrenia qual quê! A presidência da UE ( República Checa ) nas mãos de um chefe de Estado que abomina a ideia da União Europeia! Isto é o quê? Um filme de terror de péssima qualidade? A Europa em particular vive uma profuna crise de valores. Não é somente uma cíclica crise económica. É uma crise conceptual e sistémica. Os cidadãos irlandeses rejeitam um Tratado Consitucional num ano e no ano seguinte faz-se um novo referendo exactamente com o mesmo assunto? Então e se o Sim tivesse ganho far-se-ia um novo referendo? Mas onde é que está a Democracia e a Liberdade? Como é que nós, sim nós todos, permitimos isto chegar a este ponto? É muito fácil, chegar aos 18 anos e poder votar não é? Nasce-se hoje com esse direito adquirido. Mas sabemos todos nós que nem sempre foi assim? Que tudo isto que temos hoje são privilégios não valorizados? Eu faço um blogue e escrevo o que me apetece e não sou alvo de censura nem sou preso por dizer o que penso. Voto porque posso e porque quero. Mas estamos nós cidadãos em geral preocupados com o que nos rodeia? fazemos todos nós alguma coisa para mudar seja o que for? Vivemos pactuando com o sistema dos casos BPN e BCP e BPP. Não nos manifestamos. Não exigimos aos órgãos de soberania o tratamento exemplar destes casos. Vemos as notícias. Ouvimos os comentadores. E no limite falamos no café com os amigos que se interessem por estas coisas chatas. Se amanhã um Dr. qualquer burlar o Estado o que é que nós fazemos? Recentemente veio a público a notícia de que 2 ex-administradores da Caixa Geral de Depósitos reformaram-se por questões de saúde. Portanto, se é por razões de saúde, 1+1=2, presumo que a sua condição física e/ou mental não perimitia as suas actividades profissionais, e assim sendo, o Estado mensalmente paga-lhes a reforma para que não percam integralmente o seu rendimento que auferiam. Ora bem, os dois ex-administradores, estão a exercer actividades noutras empresas. Um deles já passou por várias empresas, estando agora, imagine-se, no grupo BPN, tendo passado já pela Mota-Engil e pelo Finantia. 3 empresas, 3 cargos, 3 actividades profissionais, para alguém que se reformou por questões de saúde. Se é por questões de saúde, presume-se não sejam pessoas perfeitamente válidas para trabalhar, logo são inválidas. O segundo ex-administrador, trabalha agora para o grupo Santander Totta e é administradora do grupo A. Santo e da ECS (Expresso, 3 Janeiro 2009). Eles são livres de trabalhar onde querem. Não é no entanto correcto, moralmente e eticamente, usufruírem de um rendimento sob a forma de uma reforma, que foi conseguida por questões de saúde. Se é por questões de saúde não é por uma gripe, que tem um carácter temporário, mas sim por algo que realmente não permita o exercício de funções. Então como é possível que alguém trabalhe para vária entidades em simultâneo, e ocupe cargos de elevada responsabilidade? Somos todos uma cambada de tolos? É portugal um Ensaio sobre a Cegueira? Ou é um Ensaio sobre a Estupidez? E as despesas pagas de carácter pessoal com o dinheiro dos contribuintes no caso Gebalis? Almoços de luxo em Restaurantes de luxo, viagens a Londres, Copenhaga e Nova Deli de 3 ex-administradores representam apenas 200 mil euros. A Gebalis é uma empresa que gere os bairros municipais da autarquia de Lisboa. O caso BCP e a reposição do dinheiro de um dia para o outro. Sobre tudo isto o Presidente da República nada diz? O Professor Cavaco Silva nada tem a dizer ao país? Quantos indivíduos ligados ao caso BPN fizeram parte do Governo de Cavaco Silva? Quantos clientes do BPP financiaram a campanha de Cavaco Silva? Tenho que ser justo. O Presidente Cavaco Silva tem toda a razão quanto ao Estatuto político-administratico dos Açores. É impensável alterar-se a Constituição da República através de uma lei ordinária. Pessoas de vários quadrantes políticos alertaram a Assembleia da República sobre isto. O que é ridículo é que o processo tenha sido aprovado pelos deputados açorianos de todos os partidos e depois tenha sido aprovado pela Assembleia da República por todos os partidos políticos! Inclusivé aprovaram um documento cheio de artigos inconstitucionais. Mas eles lá aprovaram. Todos tiveram culpas no cartório. O PS optou por um braço de ferro estúpido. E é verdade que Cavaco Silva não merecia este comportamento que coloca em causa a estabilidade estratégica. E o PSD o que fez? Até às eleições nos Açores aprovou tudo. Recentemente absteve-se mas deu liberdade de voto aos deputados açorianos. Anedota? Esquizofrenia política? O PSD impôs aos seus deputados que se abstivessem, não os deixou votar contra ou a favor. Isto é o quê? Assim como na I República e na Monarquia Constitucional estão criadas as condições para o surgimento de um Ditador que ponha isto na ordem. É uma verdade que dói ouvir e que me dói escrever. Mas é uma triste verdade. Todas as semanas chovem casos de corrupção. No ano passado escreveu-se tanto sobre corrupção e crime económico. Falou-se tanto em tantos escândalos. As casas da Câmara de Lisboa. Os casos na Banca portuguesa. Eu sei lá. Não sei o que vai ser de um país com um Governo sem maioria absoluta. Por razões de estabilidade concluo que o melhor é votar no partido do Governo. O voto útil de grande utilidade. Mas não quero ver tudo isto na mesma. nada me garante que um outro movimento político altere seja o que for. Os meandros do poder são os meandros do poder. Mas não, não consigo votar num partido que tem gente tão incompetente. Politicamente há gente no PS que parece sei lá o quê. Gente sem credibilidade absolutamente nenhuma. o PS precisa de gente com coragem e com competência. Ainda assim não acredito neste PS. Não acredito também no PSD. O que é que tem de Social-Democrata? Zero. Resta-me o CDS, o Bloco de Esquerda e o PCP. Não me identifico ideologicamente com o CDS. Não me identifico com as ideias revolucionárias ortodoxas do PCP. Resta-me o Bloco de Esquerda. Teoricamente não posso acreditar num partido ou num movimento que seja um agrupamento de partidos revolucionários anti-capitalistas. Não me identifico com a Extrema-Esquerda. Acredito no modelo Social-Democrata que preconize um equilíbrio de forças entre o Estado e o Mercado à laia de Joseph Stiglitz e Obama. Acredito que, num cenário de criação de um novo partido enraizado na esquerda do PS,o Bloco se possa transformar numa parte integrante de um partido reformador de Esquerda tendo como horizonte a Social-Democracia e não o anti-capitalismo gratuito. É um dever para com a sociedade portuguesa que o BE se alie com a ala esquerda do PS e que deêm origem a um novo movimento político. Com equilíbrio, com um projecto de médio e longo prazo. Da mesma forma que espero hajam movimentações políticas à direita, Porque o país precisa de uma oposição forte e credível à Direita. Porque é o equilíbrio que constitui a chave dos problemas. Uma Esquerda forte e uma Direita forte. Aguardemos. Eu aguardo.

Sábado, 27 de Dezembro de 2008

Refundação Política

Este é um período propício para uma refundação de valores político-partidários. À Direita é o momento ideal para um redimensionamento e reposicionamento político muito significativo. José Miguel Júdice falava há pouco tempo na ideia da criação de um novo partido à Direita. Verdade seja dita: não há, do ponto de vista teórico e académico, Direita em Portugal. No estrangeiro há o partido dos liberais, há o partido conservador, há o partido democrata-cristão, entre outros. Em terras lusitanas, o PSD assume-se como um partido social-democrata, e o CDS como um partido da democracia-cristã. A democracia-cristã, para sermos rigorosos, diz respeito ao Centro-Direita e não à Direita propriamente dita. A social-democracia tem que ver com o Centro-Esquerda e não com a Direita. Urge do meu ponto de vista uma requalificação, a bem da Democracia, da Direita em Portugal. À Esquerda o cenário não é diferente. À excepção do partido comunista que ficará ad eternum no beco sem saída, os outros doos movimentos políticos devem reposicionar-se no xadrez político. O Bloco de Esquerda tem actualmente a sua grande oportunidade de deixar de ser o partido do contra-poder, das alternativas teóricas, para uma plataforma de potencial governação à Esquerda ou ao Centro-Esquerda. Não que sito signifique que se tenha que vender aos meandros do poder, pelo contrário, deve continuar a assumir com coragem as mudanças necessárias à Democracia. O PS não mudará verdadeiramente. O PS é e será o que sempre foi, como de resto o será o PSD ou o novo partido à Direita. A partilha do poder corrompeu processos, mecanismos, posições, tomadas de decisão. O poder parece que não permite a verdadeira mudança. Afrontar os interesses económicos, a corrupção e todos os processos no mínimo duvidosos. É preciso uma nova Direita e uma nova Esquerda. É preciso gente nova! É preciso gente que não queira viver dos negócios entre a política e a economia da empresa. É preciso Ética. É preciso sangue novo. É preciso Carácter! À Esquerda e à Direita.

Domingo, 21 de Dezembro de 2008

Seguir em frente

À beira de uma época de festas e afins, tendo no horizonte um ano repleto de dificuldades sócio-económicas, em Portugal,na Europa e no mundo, resta-nos dar valor às mais pequenas coisas. Estava a começar a escrever sobre as vicissitudes políticas deste país, mas ouvi no meu pensamento uma frase e carreguei na seta para a esquerda. Chega! Basta! Hoje não. Hoje não quero escrever sobre o caso BPN, nem sobre o caso BCP, nem sobre a Fátima Felgueiras, nem sobre o Dr. Dias Loureiro, nem sobre o Professor Cavaco Silva, nem sobre a falta de rumo do PSD, nem sobre o lixo tóxico político-partidário-bancário. Esta semana ouvi um senhor ligado à Direita a dizer que "isto precisa de uma revolução", nem que seja apenas cultural. Tantos casos de corrupção, de degradação da Democracia, de manipulação da opinião pública, enfim. Ah, esqueci-me do Dr. Vitor Constâncio. Já agora Dr. gostava de lhe pedir encarecidamente que fizesse um donativo à OIKOS ou à Casa do Gaiato ou ao Instituto dos Ferroviários. Basta 10 euros está bem?

Lembremo-nos da medalha de ouro do Nélson Évora. Lembremo-nos das dificuldades que fomos capazes de superar aqui e ali. Lembremo-nos da nossa história recente, e notemos que enquanto país, ultrapassámos o período negro do PREC, e do ambiente de pré-guerra civil, a quase bancarrota, a inflação de valores a dois dígitos, lembremo-nos enfim das nossas alegrias e felicidades pequenas do nosso dia-a-dia.

Contornemos este momento da melhor maneira possível.

Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

Anacronismo. Lusitano.

No fim-de-semana passado realizou-se o congresso do PCP. Portugal é um dos países da Europa com mais votação num partido comunista. Prevê-se 10% nas próximas eleições. Vi alguns excertos do congresso e sinceramente considero lamentável e deplorável o PCP continuar com as ideias marxistas-leninistas. Um quadro com uma fotografia de Fidel Castro. As referências aos regimes totalitários. Coreia do Norte e afins. Valha-nos Deus! O muro de Berlim caíu. As pessoas que moravam na Alemanha de Leste, pulavam o muro para comprar o que não havia. Primavera de Praga. Albânia. O regime pseudo-comunista na China. O partido único. A Esquerda não precisa desta esquerda miserável, ancorada no tempo e no espaço. São os mesmos senhores comunistas que têm empresas e vão ao supermercado às comprinhas de Natal para as criancinhas coitadinhas que tanto merecem. Álvaro Cunhal foi um Senhor. No seu tempo, no seu contexto, percebo-lhe, sem concordar, algumas posições. Não em 2008. Não. O país precisa de uma alavanca de lucidez e de prosperidade. Não de ortodoxos preconizadores de um miserabilismo arcaico. João Amaral foi um outro Senhor no seu tempo. E teve toda a razão quando bateu com a porta.

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Novos Ventos

Urge fazer-se algo de produtivo à Esquerda. A Social-Democracia, tendo como inspiração o modelo nórdico, precisa de ser repensada e redimensionada. A Esquerda deve reflectir muito bem uma conjugação de valores assentes em Olof Palme, Joseph Stiglitz, Barack Obama, Manuel Alegre, Dan Rodrik, e um algo de Marx, entre outros. A Economia real deu lugar à Economia financeira e à Economia monetária, e os partidos socialistas democráticos e sociais-democratas pactuaram com o desenrolar da história económica, tendo por base o Consenso de Washington. A Economia de Mercado é um dado adquirido. É a melhor forma de organização de uma sociedade com vista ao equilíbrio e ao progresso sócio-económico. Não obstante, a Economia de Mercado é processada por seres humanos. E os seres humanos precisam de regras e procedimentos. É aqui que o papel do Estado deve ser repensado, e reflectido. Casos como o do BPN, que na realidade resulta dos pactos de regime feitos neste país, não podem mais acontecer. Somos todos nós, bobos da côrte, leia-se classe média, que pagamos todas estas fantochadas reais. Toda a história do BPN é bizarra, inaceitável, inacreditável. Mas só foi possível graças, em parte, ao modelo económico vigente, que permite as off-shores e a absoluta liberdade de circulação de capitais. Dito isto, o meu ponto de vista, defende a emergência de um novo partido, um movimento à Esquerda, que possa romper com a esquizofrenia partidária, e com a falta de Ética Republicana. Admito, e acho que seria do interesse da Democracia portuguesa que se criasse também um novo partido à Direita, porque este PSD não existe. EStou preparado para dar o meu contributo, para uma plataforma de convergência à Esquerda, que assente nos valores da Social-Democracia e do Socialismo Democrático.

Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

O Encontro

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida", escreveu Vinicius de Moraes para um samba imortal. Há muito tempo que as esquerdas portuguesas andam desencontradas. As razões da história e do orgulho das diferentes esquerdas são conhecidas. Tal como conhecido é o resultado prático da conjugação das soberbas da esquerda. A auto-suficiência nas razões e na moral de cada uma das esquerdas é a insuficiência de uma alternativa com políticas de esquerda para este país.


Quem agradece são aqueles que defendem a mera alternância do poder, sem verdadeira alternativa de políticas. Ora a alternância sem alternativa significa a morte da democracia. Se as pessoas votam para que as coisas mudem e nada acontece, então as pessoas perdem a esperança e deixam de votar. Não pode haver democracia sem esperança.

Um princípio de esperança foi o que se viu e sentiu na festa "Abril e Maio Agora Aqui", no Teatro da Trindade, que foi pequeno para acolher tanto entusiasmo.

Por que será que essa festa deixou tanta gente tão nervosa? Creio que foi pelo facto de esse princípio de esperança ter sido tão palpável e logo tão perigoso. Foi só um princípio, o primeiro de outros encontros? Não sabemos, não há um plano. Mas há claramente inconformismo e vontade de mudança, e de explorar os caminhos onde nos podemos continuar a encontrar, sobretudo para aqueles que não acreditam em vitórias morais e estão dispostos a lutar para transformar a nossa realidade.

Aqui ficam algumas pistas sobre o que nos pode unir.

O combate decisivo que hoje enfrentamos em Portugal é o da luta contra a desigualdade. Vivemos numa sociedade estruturalmente injusta. Américo Amorim tornou-se um dos homens mais ricos do planeta à custa da crise dos combustíveis; os bancos distribuem reformas e salários escandalosos aos seus administradores; mas temos uma classe média que vive cada vez mais esmagada pelo aumento dos preços e do peso do crédito, sem perspectiva de melhoria num futuro próximo, depois de anos de sacrifícios em nome do equilíbrio das contas públicas. Apesar dos baixos salários, temos hoje um dos mais caros cabazes de compras da UE*.

Como revelam os últimos dados da Comissão Europeia e o estudo do Professor Bruto da Costa, temos uma sociedade de contrastes sociais cristalizados. A injustiça na repartição dos rendimentos coloca-nos muito mais próximos do continente americano do que da UE. Não basta dizer que a culpa é dos outros, e que esses dados se referem a 2004. A responsabilidade é de todos, e a verdade é que a realidade social deste país pouco mudou de 2004 para cá.

Não temos apenas uma crise de emprego. O relatório do Professor Bruto da Costa torna claro que temos muitos pobres empregados. O que enfrentamos é uma crise do modelo económico. Será legítimo dizer que os salários só podem variar em função do aumento da produtividade dos trabalhadores? Mas será que os nossos gestores, que recebem ordenados acima da média europeia, são assim tão mais produtivos do que a média dos nossos trabalhadores? E como se explica que o país com a mais alta produtividade da UE – o Luxemburgo – tenha um terço da sua população activa constituída por portugueses?

Défice na educação e qualificação dos portugueses. Não basta distribuir computadores. É necessária uma maior exigência no ensino público, nomeadamente no ensino do português e da matemática. A solução não pode ser a do facilitismo nos exames e aligeiramento dos currículos. Não se pode governar para as estatísticas na educação. As novas tecnologias são importantes, mas não se substituem ao fundamental: a gramática da nossa língua e a matemática. Falta literatura nos currículos. Falta mais cultura. A escola pública só pode funcionar como verdadeira mola de igualdade de oportunidades se for exigente. Algo vai mal na escola pública quando se registam tão maus resultados nos rankings e quando se assiste a uma debandada das crianças de famílias com posses para os colégios privados. A lógica eleitoralista da facilidade perpetua a desigualdade.

A defesa intransigente do serviço nacional de saúde e da sustentabilidade da segurança social. A degradação dos serviços públicos, em áreas essenciais como a saúde, serve apenas os interesses privados, que aí querem impor a lógica do lucro. Nada a opor à existência de serviços de saúde privados, mas será que podemos aceitar o estabelecimento em Portugal – violando flagrantemente a Constituição – de um sistema de saúde pública para os pobres e de saúde privada para os ricos? Quanto à sustentabilidade da segurança social, como afirma o Professor Bruto da Costa (insuspeito de esquerdismo): "É preciso abandonar a ideia de que o vínculo laboral é o elemento fundamental de financiamento da Segurança Social. É preciso passar para um conceito baseado na cidadania, com um sistema que seja financiado por fontes de rendimento provenientes tanto do trabalho como do capital". Nas condições económicas e demográficas actuais, a hipótese de co-financiar a segurança social com rendimentos do capital não pode ser um tabu.

Estancar a sangria da emigração. Os portugueses voltaram a emigrar, em números que nos fazem lembrar a década de 60. Esta emigração é transversal – abrange todos os níveis de qualificação – e alivia a taxa real de desemprego em Portugal. A emigração voltou a funcionar como uma válvula de escape para uma sociedade onde a mobilidade é cada vez mais limitada. Hoje, como noutros tempos, são os mais dinâmicos e inconformados que partem em busca de oportunidades lá fora.

Finalmente, muitos dos problemas que hoje enfrentamos carecem de respostas políticas colectivas à escala europeia, numa lógica de coesão e solidariedade. Mais do que meras declarações de intenções, precisamos, ao invés, de metas e projectos concretos, com verdadeira disciplina na obtenção de benefícios palpáveis para os cidadãos. Não pode apenas haver disciplina no cumprimento do Pacto de Estabilidade. Portugal deve estar na vanguarda da definição de uma nova agenda económica e social na UE. Mais de metade da legislação aprovada na Assembleia da República é mera transposição de legislação comunitária. O combate político deve ser cada vez mais feito à escala europeia, dos sindicatos à coordenação, pelos governos, das políticas económicas, sociais e fiscais. Está tudo interligado. Não basta uma moeda comum. Não construiremos um espaço de prosperidade partilhada, com verdadeira coesão social e económica, mantendo a competição fiscal entre Estados-membros e uma política monetária apenas centrada no controle da inflação e do défice. Já não basta apenas a política de coesão e os fundos estruturais. As assimetrias que hoje enfrentamos afectam também os países mais ricos da UE e as suas conquistas sociais. Importa definir novos critérios de convergência social, dos salários mínimos aos direitos laborais e ao investimento na formação e conhecimento.

A defesa dos interesses nacionais passa pela nossa contribuição para o avanço dos interesses comuns da Europa. A nossa condição de país periférico, em relação ao centro político e económico da UE, obriga-nos a estar presentes em todos os núcleos de vanguarda da integração europeia. Trata-se de um imperativo estratégico: estar no centro da decisão e moldá-la, na medida das nossas capacidades e dos nossos interesses, participando na definição de novas respostas europeias aos problemas de hoje, como a globalização (a UE não pode abster-se de estabelecer um quadro normativo que regule a especulação financeira desenfreada), as alterações climáticas, a energia e as migrações.

Na política e na governação o fundamental é a definição dos objectivos essenciais e das políticas que os suportam. É uma questão de escolhas, em nome dos interesses dos representados. Há muito que essas escolhas não mudam, porque os interesses que as suportam estão bem instalados nos partidos da alternância. Estamos a chegar ao fim de um ciclo. O mais provável é que alguns, no governo e no PS, digam que não se pode arrepiar caminho. Outros defenderão a via do reforço do liberalismo e do enfraquecimento do papel do Estado (o que, num país como Portugal, significa o agravamento das desigualdades). E as esquerdas, todas as esquerdas, o que farão? Persistiremos no desencontro ou aventuramo-nos na busca de novos encontros, para mudar este país?

A mudança é possível, basta termos a vontade e a coragem de nos encontrarmos em torno do que é essencial.



Texto publicado na página oficial do MIC - Movimento de Intervenção e Cidadania

Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Podridão SA

A semana passada foi pródiga em acontecimentos, francas matérias-primas para um dos melhores programas da televisão portuguesa - O Eixo do Mal.

Barack Obama venceu as eleições americanas. O BPN foi nacionalizado. Fátima Felgueiras fez um discurso de vitória na sequência da sentença do Tribunal. O deputado no PND foi alvo de suspensão do mandato, após deliberação da maioria do parlamento regional.

A única matéria com carácter positivo é sem dúvida a vitória de Obama.

Ainda bem que, apesar de tudo, temos liberdade de imprensa. Fiquei a saber, a propósito das reportagens efectuadas sobre o caso BPN, que o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, foi durante algum tempo, accionista do Banco Português de Negócios. De resto, muitos "nobres" do Partido fizeram parte, directa ou indirectamente, do BPN. O Dr. Manuel Dias Loureiro, ex-Ministro da Administração Interna do Governo de Cavaco. O Dr. Oliveira e Costa, ex-Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, quando o Dr. Miguel Cadilhe era então Ministro das Finanças, do Governo de Cavaco Silva. Há mais uns quantos Senhores Doutores ligados ao PSD envolvidos com o BPN. Diz-se que há também Senhores Doutores do PS.

Saúdo para já, veementemente, o jornalista Nicolau Santos pela sua coragem e pela sua tomada de posição. Precisamos de mais jornalistas como este senhor. O seu artigo de sábado passado.

O PSD está muito caladinho. O PS fez o que o Regime tinha que fazer. Clara Ferreira Alves tem sobre isto uma opinião taxativa que eu subscrevo integralmente:

Se o BPN não fosse nacionalizado, e se as verdades viessem à praça pública o regime, o sistema, PS-PSD, seria fortemente afectado. Se os portugueses soubessem do que se passa nos bastidores mas raramente vem cá para fora...

Meu Deus! Que vertigens dá este sistema político assente na sociedade anónima , sem "D" e com "D"! Mas o sistema tem que continuar a existir tal e qual! Há que assegurar boas reformas e subvenções vitalícias.

"Es Muss Sein"!

"Es Muss Sein"!

Oliveira e Costa é um dos cérebros do BPN. Amigo de Cavaco Silva, diz-se.

Este Senhor Doutor foi Secretário de Estado da República Portuguesa dos Assuntos Fiscais. Diz-se que, eu não me lembro porque era miúdo, que perdoou dívidas fiscais. A quem? Porquê? Com que critérios?

Nicolau Santos escreveu:


"E a pergunta é: o que levou Oliveira e Costa a montar um programa informático virtual sobre o sistema do Banco Insular, programa esse que só ele, um administrador e um informático conheciam? Fê-lo em seu benefício? Utilizou este esquema para ocultar prejuízos e apresentar um desempenho mais brilhante do banco que dirigia desde a fundação?Uma coisa é certa: fê-lo de forma premeditada."

Este Senhor Doutor, que ninguém sabe do seu paradeiro, fez parte de um Governo da República Portuguesa! Os seus amiguinhos também fizeram parte desse mesmo governo.
Será que também fugiu para o estrangeiro?

Sei que os meus pais trabalharam para pagar o salário a esse senhor, que é provável que tenha uma boa reforma paga também com os meus impostos.

O Senhor Professor Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa não tem nada a dizer sobre este caso?

E as alegadas lavagens de dinheiro e as off-shores e tudo o mais que se terá passado?

O Dr. Constâncio também tem culpas no cartório sim senhor. Não sabia de nada? Não haviam indícios de nada? E a capa de uma prestigiada revista portuguesa de 2001 ou 2002? Lembram-se? E as taxas de juro mais altas do mercado? E os amiguinhos?

O Senhor Doutor Constâncio, que ganha mais do que o homólogo americano que seja demitido ou que se demita. E que vá para casa com a sua reforma vitalícia choruda enquanto que a minha mãe ganha 450 euros por mês e terá que trabalhar até aos 65 anos para ter uma merda de uma reforma de miséria quando já não tiver saúde nem força!

Espero, sinceramente, que o CDS, o Bloco de Esquerda e o PCP ganhem força eleitoral. Alguma coisa tem de acontecer nesta fantochada de regime. Todos os anos é a mesma coisa pá! Escândalos para aqui, escândalos para acolá! Processos na Justiça, suspeitas, casos, eu sei lá!

Foi o caso no BCP com o filho do Senhor Doutor, agora é o caso BPN com os amiguinhos. É o caso Casa Pia que se arrasta ad eternum. É a Fátima Felgueiras que parece que ganhou as eleições para Presidente da República. São as indemnizações que o Senhor Doutor recebe por jornalistas o acusarem de algo.

Também eu não vou mencionar o nome antes que o Tribunal me obrigue a pagar uma indemnização.

Este Regime está Podre. Está é muito bem disfarçado.

Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Uma Carta Electrónica

Esta E-Carta merece ser publicada. Não é da minha autoria.
Este texto foi escrito tão simplesmente por uma mãe preocupada.




Sr. Engº José Sócrates,



Antes de mais, peço desculpa por não o tratar por Excelência nem por Primeiro-Ministro, mas, para ser franca, tenho muitas dúvidas quanto ao facto de o senhor ser excelente e, de resto, o cargo de primeiro-ministro parece-me, neste momento, muito pouco dignificado.



Também queria avisá-lo de antemão que esta carta vai ser longa, mas penso que não haverá problema para si, já que você é do tempo em que o ensino do Português exigia grandes e profundas leituras. Ainda pensei em escrever tudo por tópicos e com abreviaturas, mas julgo que lhe faz bem recordar o prazer de ler um texto bem escrito, com princípio, meio e fim, e que, quiçá, o faça reflectir (passe a falta de modéstia).



Gostaria de começar por lhe falar do "Magalhães". Não sobre os erros ortográficos, porque a respeito disso já o seu assessor deve ter recebido um e-mail meu. Queria falar-lhe da gratuitidade, da inconsequência, da precipitação e da leviandade com que o senhor engenheiro anunciou e pôs em prática o projecto a que chama de e-escolinha.



O senhor fala em Plano Tecnológico e, de facto, eu tenho visto a tecnologia, mas ainda não vi plano nenhum. Senão, vejamos a cronologia dos factos associados ao projecto "Magalhães":

. No princípio do mês de Agosto, o senhor engenheiro apareceu na televisão a anunciar o projecto e-escolinhas e a sua ferramenta: o portátil Magalhães.

. No dia 18 de Setembro (quinta-feira) ao fim do dia, o meu filho traz na mochila um papel dirigido aos encarregados de educação, com apenas quatro linhas de texto informando que o "Magalhães" é um projecto do Governo e que, dependendo do escalão de IRS, o seu custo pode variar entre os zero e os 50 euros. Mais nada! Seguia-se um formulário com espaço para dados como nome do aluno, nome do encarregado de educação, escola, concelho, etc. e, por fim, a oportunidade de assinalar, com uma cruzinha, se pretendemos ou não adquirir o "Magalhães".

. No dia 22 de Setembro (segunda-feira), ao fim do dia, o meu filho traz um novo papel, desta vez uma extensa carta a anunciar a visita, no dia seguinte, do primeiro-ministro para entregar os primeiros "Magalhães" na EB1 Padre Manuel de Castro. Novamente uma explicação respeitante aos escalões do IRS e ao custo dos portáteis.

. No dia 23 de Setembro (terça-feira), o meu filho não traz mais papéis, traz um "Magalhães" debaixo do braço.



Ora, como é fácil de ver, tudo aconteceu num espaço de três dias úteis em que as famílias não tiveram oportunidade de obter esclarecimentos sobre a futura utilização e utilidade do "Magalhães". Às perguntas que colocámos à professora sobre o assunto, ela não soube responder. Reunião de esclarecimento, nunca houve nenhuma.

Portanto, explique-me, senhor engenheiro: o que é que o seu Governo pensou para o "Magalhães"? Que planos tem para o integrar nas aulas? Como vai articular o seu uso com as matérias leccionadas? Sabe, é que 50 euros talvez seja pouco para se gastar numa ferramenta de trabalho, mas, decididamente, e na minha opinião, é demasiado para se gastar num brinquedo. Por favor, senhor engenheiro, não me obrigue a concluir que acabei de pagar por uma inutilidade, um capricho seu, uma manobra de campanha eleitoral, um espectáculo de fogo de artifício do qual só sobra fumo e o fedor intoxicante da pólvora.

Seja honesto com os portugueses e admita que não tem plano nenhum. Admita que fez tudo tão à pressa que nem teve tempo de esclarecer as escolas e os professores. E não venha agora dizer-me que cabe aos pais aproveitarem esta maravilhosa oportunidade que o Governo lhes deu e ensinarem os filhos a lidar com as novas tecnologias. O seu projecto chama-se e-escolinha, não se chama e-familiazinha! Faça-lhe jus! Ponha a sua equipa a trabalhar, mexa-se, credibilize as suas iniciativas!



Uma coisa curiosa, senhor engenheiro, é que tudo parece conspirar a seu favor nesta sua lamentável obra de empobrecimento do ensino assente em medidas gratuitas.

Há dias arrisquei-me a ver um episódio completo da série Morangos com Açúcar. Por coincidência, apanhei precisamente o primeiro episódio da nova série que significa, na ficção, o primeiro dia de aulas daquela miudagem. Ora, nesse primeiro dia de aulas, os alunos conheceram a sua professora de matemática e o seu professor de português. As imagens sucediam-se alternando a aula de apresentação de matemática por contraposição à de português. Enquanto a professora de matemática escrevia do quadro os pressupostos da sua metodologia - disciplina, rigor e trabalho - o professor de português escrevia no quadro os pressupostos da sua - emoção, entrega e trabalho. Ora, o que me faz espécie, senhor engenheiro, é que a personagem da professora de matemática é maldosa, agressiva e antiquada, enquanto que o professor de português é um tipo moderno e bué de fixe. Então, de acordo com os princípios do raciocínio lógico, se a professora de matemática é maldosa e agressiva e os seus pressupostos são disciplina e rigor, então a disciplina e o rigor são coisas negativas. Por outro lado, se o professor de português é bué de fixe, então os pressupostos da emoção e da entrega são perfeitos. E de facto era o que se via. Enquanto que na aula de matemática os alunos bufavam, entediados, na aula de português sorriam, entusiasmados.



Disciplina e rigor aparecem, assim, como conceitos inconciliáveis com emoção e entrega, e isto é a maior barbaridade que eu já vi na minha vida. Digo-o eu, senhor engenheiro, que tenho uma profissão que vive das emoções, mas onde o rigor é "obstinado", como dizem os poetas. Eu já percebi que o ensino dos dias de hoje não sabe conciliar estes dois lados do trabalho. E, não o sabendo, optou por deixar de lado a disciplina e o rigor. Os professores são obrigados a acreditar que para se fazer um texto criativo não se pode estar preocupado com os erros ortográficos. E que para se saber fazer uma operação aritmética não se pode estar preocupado com a exactidão do seu resultado. Era o que faltava, senhor engenheiro!



Agora é o momento em que o senhor engenheiro diz de si para si: mas esta mulher é um Velho do Restelo, que não percebe que os tempos mudaram e que o ensino tem que se adaptar a essas mudanças? Percebo, senhor engenheiro. Então não percebo? Mas acontece que o que o senhor engenheiro está a fazer não é adaptar o ensino às mudanças, você está a esvaziá-lo de sentido e de propósitos. Adaptar o ensino seria afinar as metodologias por forma a torná-las mais cativantes aos olhos de uma geração inquieta e voltada para o imediato. Mas nunca diminuir, nunca desvalorizar, nunca reduzir ao básico, nunca baixar a bitola até ao nível da mediocridade.



Mas, por falar em Velho do Restelo...



... Li, há dias, numa entrevista com uma professora de Literatura Portuguesa, que o episódio do Velho do Restelo foi excluído do estudo d'Os Lusíadas. Curioso, porque este era o episódio que punha tudo em causa, que questionava, que analisava por outra perspectiva, que é algo que as crianças e adolescentes de hoje em dia estão pouco habituados a fazer. Sabem contrariar, é certo, mas não sabem questionar. São coisas bem diferentes: contrariar tem o seu quê de gratuito; questionar tem tudo de filosófico. Para contrariar, basta bater o pé. Para questionar, é preciso pensar.

Tenho pena, porque no meu tempo (que não é um tempo assim tão distante), o episódio do Velho do Restelo, juntamente com os de Inês de Castro e da Ilha dos Amores, era o que mais apaixonava e empolgava a turma. Eram três episódios marcantes, que quebravam a monotonia do discurso de engrandecimento da nação e que, por isso, tinham o mérito de conseguir que os alunos tivessem curiosidade em descodificar as suas figuras de estilo e desbravar o hermetismo da linguagem. Ainda hoje me lembro exactamente da aula em que começámos a ler o episódio de Inês de castro e lembro-me das palavras da professora Lídia, espicaçando-nos, estimulando-nos, obrigando-nos a pensar. E foi há 20 anos.



Senhor engenheiro José Sócrates: vejo que acabo de confiar o meu filho ao sistema de ensino onde o senhor montou a sua barraca de circo e não me apetece nada vê-lo transformar-se num palhaço. Bem, também não quero ser injusta consigo. A verdade é que as coisas já começaram a descarrilar há alguns anos, mas também é verdade que você está a sobrealimentar o crime, com um tirinho aqui, uma facadinha ali, uma desonestidade acolá.



Lembro-me bem da época em que fiz a minha recruta como jornalista e das muitas vezes em que fui cobrir cerimónias e eventos em que você participava. Na altura, o senhor engenheiro era Secretário de Estado do Ambiente e andava com a ministra Elisa Ferreira por esse Portugal fora, a inaugurar ETAR's e a selar aterros. Também o vi a plantar árvores, com as suas próprias mãos. E é por isso que me dói que agora, mais de dez anos depois, você esteja a dar cabo das nossas sementes e a tornar estéreis os solos que deveriam ser férteis.



Sabe, é que eu tenho grandes sonhos para o meu filho. Não, não me refiro ao sonho de que ele seja doutor ou engenheiro. Falo do sonho de que ele respeite as ciências, tenha apreço pelas artes, almeje a sabedoria e valorize o trabalho. Porque é isso que eu espero da escola. O resto é comigo.



Acho graça agora a ouvir os professores dizerem sistematicamente aos pais que a família deve dar continuidade, em casa, ao trabalho que a escola faz com as crianças. Bem, se assim fosse eu teria que ensinar o meu filho a atirar com cadeiras à cabeça dos outros e a escrever as redacções em linguagem de sms. Não. Para mim, é o contrário: a escola é que deve dar continuidade ao trabalho que eu faço com o meu filho. Acho que se anda a sobrevalorizar o papel da escola. No meu tempo, a escola tinha apenas a função de ensinar e fazia-o com competência e rigor. Mas nos dias que correm, em que os pais não têm tempo nem disposição para educar os filhos, exige-se à escola que forme o seu carácter e ocupe todo o seu tempo livre. Só que infelizmente ela tem cumprido muito mal esse papel.



A escola do meu tempo foi uma boa escola. Hoje, toda a gente sabe que a minha geração é uma geração de empreendedores, de gente criativa e com capacidade iniciativa, que arrisca, que aposta, que ambiciona. E não é disso que o país precisa? Bem sei que apanhámos os bons ventos da adesão à União Europeia e dos fundos e apoios que daí advieram, mas isso por si só não bastaria, não acha? E é de facto curioso: tirando o Marco cigano, que abandonou a escola muito cedo, e a Fatinha que andava sempre com ranhoca no nariz e tinha que tomar conta de três irmãos mais novos, todos os meus colegas da primária fizeram alguma coisa pela vida. Até a Paulinha, que era filha da empregada (no meu tempo dizia-se empregada e não auxiliar de acção educativa, mas, curiosamente, o respeito por elas era maior), apesar de se ter ficado pelo 9º ano, não descansou enquanto não abriu o seu próprio Pão Quente e a ele se dedicou com afinco e empenho. E, no entanto, levámos reguadas por não sabermos de cor as principais culturas das ex-colónias e éramos sujeitos a humilhação pública por cada erro ortográfico. Traumatizados? Huuummm... não me parece. Na verdade, senhor engenheiro, tenho um respeito e uma paixão pela escola tais que, se tivesse tempo e dinheiro, passaria o resto da minha vida a estudar.



Às vezes dá-me para imaginar as suas conversas com os seus filhos (nem sei bem se tem um ou dois filhos...) e pergunto-me se também é válido para eles o caos que o senhor engenheiro anda a instalar por aí. Parece que estou a ver o seu filho a dizer-lhe: ó pai, estou com dificuldade em resolver este sistema de três equações a três incógnitas... dás-me uma ajuda? E depois, vejo-o a si a responder com a sua voz de homilia de domingo: não faz mal, filho... sabes escrever o teu nome completo, não sabes? Então não te preocupes, é perfeitamente suficiente...

Vendo as coisas assim, não lhe parece criminoso o que você anda a fazer?



E depois, custa-me que você apareça em praça pública acompanhado da sua Ministra da Educação, que anda sempre com aquele ar de infeliz, de quem comeu e não gostou, ambos com o discurso hipócrita do mérito dos professores e do sucesso dos alunos, apoiados em estatísticas cuja real interpretação, à luz das mudanças que você operou, nos apresenta uma monstruosa obscenidade. Ofende-me, sabe? Ofende-me por me tomar por estúpida.

Aliás, a sua Ministra da Educação é uma das figuras mais desconcertantes que eu já vi na minha vida. De cada vez que ela fala, tenho a sensação que está a orar na missa de sétimo dia do sistema de ensino e que o que os seus olhos verdadeiramente dizem aos pais deste Portugal é apenas "os meus sentidos pêsames".



Não me pesa a consciência por estar a escrever-lhe esta carta. Sabe, é que eu não votei em si para primeiro-ministro, portanto estou à vontade. Eu votei em branco. Mas, alto lá! Antes que você peça ao seu assessor para lhe fazer um discurso sobre o afastamento dos jovens da política, lembre-se, senhor engenheiro: o voto em branco não é o voto da indiferença, é o voto da insatisfação! Mas, porque vos é conveniente, o voto em branco é contabilizado, indiscriminadamente, com o voto nulo, que é aquele em que os alienados desenham macaquinhos e escrevem obscenidades.



Você, senhor engenheiro, está a arriscar-se demasiado. Portugal está prestes a marcar-lhe uma falta a vermelho no livro de ponto. Ah... espere lá... as faltas a vermelho acabaram... agora já não há castigos...



Bem, não me vou estender mais, até porque já estou cansada de repetir "senhor engenheiro para cá", "senhor engenheiro para lá". É que o meu marido também é engenheiro e tenho receio de lhe ganhar cisma.



Esta carta não chegará até si. Vou partilhá-la apenas e só com os meus E-leitores (sim, sim, eu também tenho os meus eleitores) e talvez só por causa disso eu já consiga hoje dormir melhor. Quanto a si, tenho dúvidas.



Para terminar, tenho um enorme prazer em dedicar-lhe, aqui, uma estrofe do episódio do Velho do Restelo. Para que não caia no esquecimento. Nem no seu, nem no nosso.



"A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias? "





Atenciosamente e ao abrigo do artigo nº 37 da Constituição da República Portuguesa,

Uma mãe preocupada

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Citação de Início da Semana

"O erro dá o conforto de sermos simplesmente humanos."




António Almeida in Caderno de Economia do semanário Expresso

Domingo, 2 de Novembro de 2008

Ilusão e Respeitinho.

Aqui há uns tempos atrás, lembro-me, de olhar para as agências do BPN - Banco Português de Negócios - e pensar que aquilo deveria ser só dinheiro, só malta das classes altas do país é que teriam lá uma conta, pois ouvia-se dizer que o montante mínimo de abertura de uma conta era muito elevado, ou seja aquilo não era para qualquer um. O respeitinho é muito lindo lembram-se?

De banco dos ricos passa a banco nacionalizado. O governo admitiu hoje levar a proposta de nacionalização à Assembleia da República. A proposta será validada.
Desde 1975 que não havia nenhuma nacionalização. E as que na altura ocorreram deveram-se a uma tentativa de implantação de uma ditadura.

Sou a favor do mercado. E sou a favor do Estado. Preconizo uma harmonia sócio-económica entre o serviço público e o dinamismo privado. Defendo a Social-Democracia, defendo um Modelo Social Europeu forte, defendo a liberdade de iniciativa privada, defendo um equilíbrio estratégico entre a mão-invisível e a regulação. Sou a favor de algumas nacionalizações e sou a favor de algumas privatizações. Defendo o Modelo Nórdico. É a simbiose perfeita. Do melhor do Socialismo. E do melhor do Capitalismo.

"No meio está a virtude."

Ricardo Costa, na Sic Notícias, comentou hoje a nacionalização do BPN. Gostei de ouvi-lo sinceramente. Teve a coragem de dizer preto no branco aquilo que se terá passado no tal banco dos ricos. Toda a gente do meio sabia, supostamente, da situação do BPN ao longo destes últimos anos.

Ricardo Costa afirmou que em Portugal há dois reguladores hiperactivos: a ASAE e a ERC; e há dois reguladores "a dormir": o BdP e a AdC. Porquê?

Já que somos nós os contribuintes de tudo isto, temos o direito de perguntar porquê?

Porque é que o Banco de Portugal não actuou há muito mais tempo sobre este banco?

Porque é que permitiu o tipo de gestão que alegadamente se desenvolveu naquele banco?

O Ministério Público supostamente está a investigar o BPN no âmbito de uma gestão danosa, segundo li. Muito bem. Então o BdP serve para quê? Para publicar de vez em quando uns estudos econométricos? Não é o regulador e o supervisor? Quando fiz duas reclamações por escrito ao BdP a propósito de um destratamento do "meu" banco, lá recebi em casa uma carta do BdP, ah e tal, não é nada connosco e não sei quê, e pardais ao ninho. Pois é meus amigos. Estamos fartos desta coisa toda.

Ricardo Costa disse que Francisco Louçã tinha razão sobre esta matéria. Ouvi-o também hoje à tarde sobre tudo isto. E subscrevo integralmente as suas palavras.

Precisamos em Portugal da frontalidade e da coragem que hoje Ricardo Costa teve ao falar sobre a falta de transparência e a duvidosa gestão do BPN.

Precisamos de mais "Ricardos Costas" e de mais "Franciscos Louçãs".

Enquanto cidadão e contribuinte gostaria de ouvir alguém do Governo ou do Banco de Portugal a contar a história do BPN. Tim Tim por Tim Tim.

Quantos?

Vivemos num período da história económico-social muito perigoso. As sociedades ocidentais vivem dentro de uma "matrix" impensável à luz dos valores do iluminismo, da revolução francesa e americana. Há quanto tempo se diz por aí que entre a esquerda e a direita já não há muitas diferenças, que o fundamentalismo do mercado é o caminho único? O secretário-geral do PS disse recentemente que aqueles acérrimos defensores do mercado perderam a sua batalha. Constato, efectivamente, que o Partido Socialista pactuou integralmente com a Direita Económica e Política em muitíssimas matérias. A nível nacional, europeu e mundial. A utilização de expressões como a terceira via e a esquerda moderna mascararam sempre a transformação de valores e convicões, e o benefício directo e indirecto de estar mais próximo do "mercado". Os "tachos", as "cunhas", as "influências". Quantos?

Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

Filosofia. Ainda.

Há poucos dias vi uma entrevista a um filósofo holandês, sobre a humanidade, que do meu ponto de vista é fundamental. 30 minutos de discurso, que contrasta plenamente com os formatos light e comerciais dos conteúdos da televisão. Para quem gosta do outside of the box, rigorosamente a não perder.

http://www.roberthappe.net/port/video.htm